sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Volta

Ela andava na minha frente como quem sorve a última gota de água em um dia se sol tórrido. Aquele trecho da W3 sul estava quase que completamente abandonado. As mazelas dos grandes centros... já as temos no jardim planejado do Planalto. Suas largas ancas acompanhavam o batuque imaginário de meus dedos. Ansiosos por dedilhar aquele couro macio e perfumoso. Os longos cabelos pretos escorregavam em uma sensual onda arrebentando em suas dunas perfeitas.

Estava tão absorvido por aquela visão Dionisíaca que nem percebi quando ela virou o rosto e me olhou furtivamente. Continuei em meu deurtiio lúbrico e mais uma vez não notei seu olhar. Finalmente saí de meu transe ao ouvir sua voz:

- Ô babão, vai ficar aí feito um palerma?

Meu susto não foi maior que minha vergonha. Senti-me, logo eu, um adolescente tímido olhando o nada e aparvalhado. Não durou muito meu estupor.

- Nada disso minha visão paradisíaca, sou seu servo.

Puta que pariu – pensei – que cantadinha cretina. No entanto, ela abriu uma gargalhada larga, como suas ancas, mostrando os incríveis dentes brancos contrastando com sua pele caramelizada.

- Você existe ou saiu de um filme de época?

E riu muito novamente, e ao fazer isso rodou nos calcanhares e seguiu seu caminho. E eu, abobalhado, permaneci colado naquela calçada que viu o parque nascer.

Pois é minha caríssima e única leitora, deixemos de lorota e vamos ao que interessa: essa historiazinha aí de cima é apenas para dizer que o poupadordeporra está de volta. A senhora não tem idéia – com acento – o sofrimento que é conseguir umas poucas linhas que corram livres em direção ao mar. Dito isto finalizemos com mais uma daquelas intermináveis promessas de início de anos: tentarei escrever mais vezes nesse espaço cibernético. Fui.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Silêncio, espera.

O Sr. Escobar exprimia em seu rosto grande preocupação, ao examinar, com firmeza e cautela, o rosto daquela criatura estranha que sorria convulsivamente. Um pobre rapaz, que estava ao lado da besta, contemplava a cena com ar abobalhado e um olhar vítreo, que não revelava nada além da inexpressividade. Todos os olhos dirigiram-se intensamente para o esparramo com um indescritível cheiro de mofo e miséria. Um policial parado junto a uma porta da comercial contempla o sucesso do cenário, e pensa: "Ora, o que essa multidão pensa ser um teatro, não passa de velhas patuscadas. Na verdade, a gente devia se envergonhar. Nunca nada é original... direi isso mais tarde, que nada é original. Isso soa bem".

Nisso a criatura estranha e o jovem abobalhado se arrumam, e uma tempestade de vaias varre a comercial. E o espetáculo chega ao fim. Às dez e meia começou, acabou às onze. A rua está vazia, nos arredores ninguém mais dá notícia do acontecido e longe, perto da padaria, há dois senhores cantarolando uma Rapsódia. E o senhor Escobar estremeceu, virou-se para o outro lado. Olhando todos aqueles rostos encantadores e acalorados, pareceu que o espreitavam. Ficou com um desejo de ir embora, de procurar em outro lugar quietude e solidão. Sim, partiria dali, sem uma palavra. Mas o pensamento faz um volteio e sobe a escada da especulação e pensa: "Claro, é preciso explorar todas as maneiras para provocar o público. É sempre delicioso contemplar um cenário inaudito. Que criatividade, que humor".

Naturalmente não fora embora. Ficara sentado em um café que havia em frente, curvado para diante, mãos entre os joelhos, cabeça inclinada. Ele fitou as pessoas com lentidão excessiva e atormentado, com intervalos dolorosamente longos entre uma piscada e outra. Depois, silêncio, espera.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Bisbilhotice

Vezes me pego bisbilhotando pessoas. E é sempre dentro de um bar que minha curiosidade dá o ar de sua graça, mesmo porque raramente estou acompanhado, o que me propicia devaneios profundos. Não raro, me surpreendo analisando os destinatários de meus olhares cobiçosos, criando cenários para pessoas nunca vistas, forjando psicologias baratas de seres na lonjura do horizonte. Naturalmente tudo segue o roteiro de minha tosca imaginação.

Por exemplo: o casal de adolescente escondidinho lá no fundo mais escuro. É lógico que nunca transaram entre eles. Estão se pegando vorazmente, como se estivessem no quarto, sentido toda ausência, sem se darem conta que havia gente ao redor. Pense comigo minha única leitora, soube por fonte confiável que o exemplar masculino não me lê mais. Ficou chateado com certo comentário a propósito da barbárie humana. Mas voltemos ao casal. Em minha alucinação vejo a moça com receio, se escondendo em público para dar um amasso legal. Assim não corre o risco da tentação de primeiro encontro, afinal ela tinha um nome a zerar. Sim, minha impudica leitora, é zerar e não zelar.

Sozinhos, longe da vista da multidão e dentro do turbilhão, podem dar vazão ao instinto animalesco em toda sua plenitude. Já o rapaz, alheio ao burburinho, está com o testosterona em ebulição, prestes a entrar em erupção nada lhe diz respeito, só pensa naquilo. Martírio dos martírios. Ao chegar em casa, desde priscas eras, o resultado é sempre o mesmo: a covardia se instaura em uma peleja de cinco contra um. Isso é o que eu chamo de gastodeporra. Tô fora! Como minha adorável leitora é sabedora. Eu poupoporra.

Neste mesmo palco, outro casal, já entrado em anos, representa a mesma cena e colore a atmosfera com outras tintas. Ciosos do já feito estudam cada gesto, cada olhar. Nada é rápido. Todo movimento é precedido por uma valsa lenta. Apenas a celeridade da idade emoldurando o retrato antigo, revelando uma imagem que já se escondeu lá no fundo mais escuro. A prata ampliando a fotografia serena, o afago sem afã, a delicada troca de olhares e, acima de tudo, a mansa navegação do veleiro, me deram a convicção, se isso é possível, de que eles tomam café da manhã juntos há bastante tempo. Especulo se tem netos. Acho que sim. Havia em seus rostos aquele aspecto de bonomia que só os avós têm.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Que Santo Expedito nos Ajude

A capital começava seu dia – e que dia – em silêncio. Um silêncio que não era aquele de quando os lobos vagavam como senhores dessa terra, mas de outras épocas. Uma mudez de funerária. Silêncio de agora onde os lobos saqueiam muito mais que nossa grana, rapinam muito mais que nossa roça. Roubam-nos a vergonha, nossa própria capacidade de existir. Não os animais, mas a matilha encastelada em modernos santuários louvando, como que ouvindo a Elegia de Massenet, um butim bem repartido, uma partilha que não envergonhe a aristocracia contemporânea, afinal é lídima herdeira de tempos medievais, e até mesmo cantando uma virtuosa Ária ao vacilão. Caninos sedentos rasgando a turba.

São melodias de pausa que quando ecoadas pelas quadras, não atraem um ser, não chamam a atenção de nenhum pássaro e nem ao menos temos um carro passando. Não havia uma janela aberta sequer, e – o que era mais raro ainda – as janelas permaneciam com as cortinas cerradas. Uma total ausência de sons anunciava um acontecimento de extrema gravidade. Talvez a máscara desbotasse, a mordaça cairia e – não sem polêmica – teríamos uma nova ordem. Tais eram as opiniões dos formadores da mesma. Nunca, sem dúvida, a cidade havia amanhecido daquela maneira. Um silêncio ensurdecedor. Mas os esculpidores de presunções se equivocaram redondamente. Nada saia do lugar. Apenas a sensação de uma eterna imobilidade. Esperando o que não virá, vigiando as fronteiras que os tártaros jamais transporão.

Tal era o semblante da urbe moderna: traços vincados por um tempo insistindo em vigorar, não obstante toda possibilidade de passagem. Anjo Exterminador pairando acima de qualquer atitude. A beatitude da inércia permanece tecendo hábitos antigos, velhas idéias – com acento cem por cento – em velhos papéis, imagem de outrora roubando a cena e mofo perfumando platéia – também atéia em relação ao novo acordo ortográfico.

Meu único leitor deve estar pensando que ensandeci. Não está de todo errado. Só que ainda resta uma réstia – mesmo que rala – de vontade. Uma pequena chama flutuando perdida na escuridão. Se a vi? Não faça pergunta difícil! Deixe estar que um dia há de mudar. Será? Que Santo Expedito nos ajude.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A Yorkshire e a Enfermeira.

Houve uma coisa que fez tremer a sociedade, mais do que os movimentos populares; o assassinato da cachorrinha de Formosa. Para mim foi curioso perceber a fúria da horda quando as imagens em movimento despertaram ao clarão desse veículo pós-moderno; era o ápice da indignação mostrando seus caninos afiados, como uma reação extemporânea do animal em questão.

Não falo do enforcamento, ordenado pela barbárie dos julgamentos precipitados. Aquilo que foi dito na rede e nos veículos de comunicação a respeito da condenação trouxe naturalmente a cor alegre que isso tipo de reação empresta a todos os assuntos onde a turba ensandecida se esquece de sua razão. Eu, se fosse autoridade de Pindorama, também condenaria a enfermeira, não por ser uma louca, mas por ser enfermeira. Execraram a mulher, e não há de ser a simples notícia de uma abominação que fará com que percamos o sono nem o apetite. A simples descrição dos fatos não seria suficiente para arrepiar os pelos, as metáforas não descrevem nada, as figuras de linguagem nada revelam, mas as patas trêmulas da yorkshire foi o espetáculo de que necessitávamos.

Quanto ao crime que levou a enfermeira goiana ao cadafalso social, não é o que mais me abate e entristece. Dizem que impingiu enormes danos ao caráter de sua filha, testemunha ocular da história. Compreendo que a matassem por isso. É um crime hediondo, naturalmente; mas há outros tão ou mais repulsivos. Ademais, pode ser que a enfermeira quisesse explicar à sociedade como a memória inicial era fugidia, cientificamente falando. Pegou de um pequeno exemplar canídeo e o abateu. Os espectadores, sem saber a diferença entre o experimentalismo científico e o vulgar, pediram explicações; a enfermeira pegou outro exemplar e repetiu o experimento. Os nativos, não tendo a fineza intelectual de um Schopenhauer, continuaram sem entender patavina, e a enfermeira continuou matando os dóceis cachorrinhos. É o que em pedagogia se chama lição das cousas.

Desta maneira, com uma substancial ajuda do bruxo do Cosme Velho, acabou uma semana tristíssima para a música, para o teatro e para o carnaval, mas para a sanha de redenção de uma sociedade podre com enorme alegria, pois mais um símbolo foi eleito para expiar sua culpa.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Estátuas

Fez um grande esforço para manter o olhar sobre a estátua. Tinha pavor dos seres humanos: pareciam-lhe imprevisíveis, sobretudo, perversos e sujos. As estátuas, no entanto, lhe proporcionavam uma tranqüila felicidade, pertenciam a um mundo ordenado, belo e limpo.

Ernesto Sabato In "Sobre Héroes y tumbas".


 

Meu sorriso amarelecido e podre é duro e sarcástico. Nos poucos dentes restantes há uma mescla de temor e esperança, cujo tenebroso brilho de meus olhos não consegue esconder. Todo meu rosto cobre-se de rugas senis, funéreas e tudo em mim não passa de um mero vulto lastimável. Não pense minha única leitora que com isso imploro um sentimento de compaixão, dor e comiseração, ou até mesmo uma afeição áspera, desagradável, de constrangimento. A tristeza, a tepidez e a disposição enternecida, suscitam um embaraço parecido com a vergonha. Tampouco se admire meu caro e escasso leitor que eu não possua o dom da palavra e muito menos uma intuição sutil e magnífica. Sou comum, prosaico e desinteressante. Meu rosto embotado, indiferente e ao mesmo tempo insolente é a prova cabal do que digo.

Bem sei que com isto estou levantando tantas impressões que aonde sua curiosidade juvenil espera encontrar o tédio, a solidão e a apatia, irás entrever apenas um presente que nos impregna e nos perturba. As pessoas sofrem, enraivecidas pelo trabalho e pela miséria, mas a mim essas coisas nada dizem. Só me restam frases soltas. As lembranças de uma expressão, de uma carícia não passam de réstias em minha memória, e se algo permaneceu, talvez pelo inusitado da situação, foi tão somente a simples idéia – com acento -, a singela possibilidade de que eu não esteja em desacordo com os ditames preconizados pelo silêncio.

Naturalmente, posto que sou o que se poderia chamar de escória da sociedade, é lógico supor que alguma vez pude sentir algo por alguém. Mas o fato é que o ser humano sempre me deprimiu. Devo dizer que este problema, que poderíamos chamar de síntese ética do homem, foi um dos que mais me ocupou, sendo mesmo uma obsessão. Os enigmas eram vários e os mesmos e sempre que minhas buscas se iludiam com a possibilidade de um caminho me via mais perdido que cego em tiroteio. Posto isso, fecho essa narrativa sem pé nem cabeça. Afinal, não passo de mais um representante da espécie.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Serafim

Serafim, poeta teimoso, fascinante, e, contudo, muito frágil, jamais acreditou que tivesse bossa para a escrita. Ao contrário da maioria dos autores, atribuía todos os méritos aos seus escritores-fantasmas. Tratava-se de uma criatura estranha, obsessiva e obstinada no que diz respeito a si próprio, tão obcecado por seu brilho pessoal que diuturnamente um sentimento de culpa o mordiscava por todos os lados. Este parecia viver em alguma parte, na obscuridade de seu subconsciente; bastaria acender uma luz e lá estaria ele, apanhado em algum gesto peculiar. Ele, o sentimento de culpa, sentia o triste alívio de alguém que compreende que havia um amor que já não o feria.

Já Serafim, é certo tipo de artista que personifica os mais lamentáveis defeitos: é meditativo e, no entanto, cego em relação a si próprio; original, porém horrivelmente familiar; bebe demais e está sempre procurando alguém que o aconselhe, embora não esteja disposto a segui-lo. E foi a busca pela personagem autêntica que deu início a essa discussão amigável entre seu sentimento de culpa e as personagens. Às vezes ficava assustado diante da maneira pela qual as personagens tomavam forma no escuro, sem o seu conhecimento. Outras vezes combinava o tom perfeito dos gestos com o mais afinado dos sentimentos. Esse momento, quando tudo dava certo, era para ele uma satisfação e não se sentia o peso do desperdício que quase sempre é sinônimo de mau gosto.

Os outros riam desabaladamente, achando que era safadeza da cabeça dele e que nenhuma personagem precisava de autor para dar frutos. Bandeei para o lado dele, mas, sempre muito falastrão na hora de defendê-lo, calei-me pasmo da minha profunda ignorância. Ele era o único que tinha certezas absolutas, eu era incapaz de perceber quais personagens eram impecáveis.

Hoje em dia, é preciso que tenhamos cuidado até mesmo com os nossos passatempos.